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jules' Journal
 
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Below are the 20 most recent journal entries recorded in jules' LiveJournal:

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    Tuesday, May 29th, 2001
    10:50 am
    Resposta ao Mauricio
    mafon - como a gente ? humanos e mosquinha. custa tanto se ver e mudar, mudar por dentro. enquanto isso somos mosquinhas vaidosas, cheias de si mesmo. nao to falando sobre vc nem eu. alias, estou sim falando de mim. mudar ? um movimento diferente em muitos niveis diferentes. mudar o f?sico ? r?pido - qualquer semana que a gente deixa de comer ou come demais e j? se nota. mudar h?bitos como parar de fumar, de comer carne, ou comecar a praticar um esporte, j? leva mais tempo, uns seis meses para o efeito comecar a aparecer. mudar o futuro da gente leva mais tempo, ?s vezes a vida inteira. aprender uma profissao, afiar um talento, insistir num sonho, num projeto. os frutos dessa arvore s? comecam a aparecer agora, aos 30, e ainda assim muito timidamente, como aqueles primeiros ara?as amargosos daqueles p?zinhos magros que vc j? deve ter visto tantas vezes pelas minas. eu invisto, mais ou menos conscientemente, ponho atencao e amor, alguma cisma, e ele vai crescendo sempre devagarinho... mas duro mesmo ? mudar por dentro. talvez seja consequencia de todas as mudancas menores e mais rapidas, tudo seja reflexo dessa longa e demorada mudanca interna, que est? levando de mim muita vida. nem uma nem duas. eu nao sei o caminho, nao sei o que ? certo. tenho um mapa que achei por a?, corrigid?ssimo por pessoas mais ou menos aptas para a fun??o de corrigir mapas. e sabe o que, amigo velho: eu continuo sendo quase integralmente o mesmo moleque carente, criativo, cabe?a dura e timido que fui h? 25 anos. nao tem a ver com a minha familia, apesar deles terem agido para definir/mostrar/fortalecer algumas tendencias. mas tudo j? estava ali, ao mesmo tempo ao alcance das maos e tao longe de mim. sou eu, quem te escreve, que me conhece tao pouco ainda. e quando falo de crescer, transformar, me refiro a movimentos intimos, nao a coisas gen?ricas como ganhar humildade, ser capaz de amar e perdoar; me refiro a ter coragem de me olhar no espelho e ver onde est? machucado e tratar dessas feridas reais e/ou imaginarias. eu sinto que na maior parte do meu dia, eu vivo tanto pra fora, para as rotinas, enquanto dentro de mim eu me prendo num quarto com as luzes apagadas e sozinho, como um lobo ferido que sabe que est? ferido mas nao quer a ajuda de ninguem para se tratar, que nao confia em ninguem, tem medo de morrer mas tem ainda mais medo de outras pessoas, tem medo de tudo e dessa forma primitiva, prefere morrer sozinho com a propria dor que arriscar que ? luz aparecer todo escalacrado e feio e medroso na frente das gentes... bom, ? isso que eu tive vontade de te dizer depois de ler a sua mensagem. um abraco com saudades. j-
    10:49 am
    Mensagem do Mauricio
    Oi amigo

    Gostei de ler sua mensagem. ? bom saber que os amigos est?o de bem com a vida, com os sonhos na ponta da l?ngua, prontos a se corporificarem em desejo realizado. Sempre achei que voc? escreve bem, seus textos s?o voluptuosos, transmitem muita vida, aquela tens?o pr?pria de quem tem os sensores bem abertos e sabe traduzir os sentimentos em linguagem. Qualquer que sej a ela.
    Demorei a escrever sobre aquele seu momento. Mas ? assim mesmo. Estava passando por uma fase dif?cil. Ainda estou, mas estou mais purificado, com a alma mais fortalecida. E como dissemos ao outro em outra ocasi?o: para as amizades verdadeiras ? o tempo n?o conta. Inclusive os sil?ncios, quando tomados como medida do tempo. Aquela coisa que custei a entender em minha rela??o com M?rcia (sua tia) e outros amigos e me levava a sentimentos assim: "puxa, escrevi com a alma t?o aberta e ela n?o me responde". Percebi que ?s vezes ocorre uma situa??o inversa ? que nossas car?ncias projetam. No meu caso, como n?o respondia para voc?, levava esta n?o resposta comigo e ficava pensando: p? , quero responder a mensagem do Juca. O tempo passando... Acabou que voc? viajou comigo durante todo este tempo.
    Not?cias. Reencontrei a Marie aquela fot?grafa sui?a que voc? me apresentou no Empanadas, tempos atr?s. Estamos conversando sobre a possibilidade dela trabalhar no meu projeto mais recente, que envolve a produ??o de v?deos sobre os mitos guarani, o 2? CD, uma s?rie de livros e um site sobre a cultura guarani.
    Estamos tamb?m batalhando pela segunda vez para ir ? Europa. Fomos convidados para festivais em G?nova e em Mil?o. Viagem prevista para o m?s de julho. Dif?cil ? obter as passagens. O governo brasileiro n?o d? a m?nima para as culturas ind?genas.
    Estou enviando um texto j? traduzido para o ingl?s sobre a cultura guarani e sobre o nosso trabalho. Se voc? quiser divulg?-lo em algum espa?o fique ? vontade.
    Um dia desses o Lulu, aquele cara negro que voc? conheceu naquele bar baiano , me convidou para fazer uma perfomance po?tica na abertura de um show de V?nia Abreu, no SESC Itaquera. Foi uma experi?ncia interessante. Pela primeira vez li meus poemas a um p?blico desconhecido. Tinha muita gente, moradores de periferia da zona leste. Foi uma experi?ncia muito boa. Uma coisa ? escrever. Outra ? interpretar um texto, transmitir o seu r?tmo, dar vida ?s imagens, passar o clima que envolve as palavras. Li coisas minhas, poemas er?ticos de Drummond (tem uma s?rie sobre bundas que ? ?tima), Manoel de Barros e umas est?rias que Alice contava quando tinha 5 anos e eu gravei.
    Fiquei com vontade de publicar os meus textos.E de inventar perfomances coletivas mais ousadas.
    As crises da vida continuam, algumas em fases bem agudas. Mas aprendi a conviver com elas e manter-me inteiro, n?o perder a auto-estima. Afinal a passagem do tempo acaba nos ensinando alguma coisa...

    um forte abra?o

    Maur?cio
    10:48 am
    Futebol: alegria e sofrimento
    li o texto do cony sobre futebol (abaixo). ? interessante esse negocio de ser de esquerda e gostar de futebol no brasil. o patrus ? cristao mas a grande cisma que eu tenho com ele ? pelo futebol. eu gosto de futebol mas ele ? - ia dizer obcecado, mas o patrus nao merece essa palavra - apaixonado pelo jogo. APAIXONADO com mai?sculas. ? daqueles que lembra as escalacoes do galo e da selecao desde 58. ou desde antes, talvez.

    e eu, que sou reconhecidamente alienado, nao entendo como ele e outras pessoas engajadas amam tanto um jogo que ? genialmente jogado pelos brasileiros mas que se desenvolveu intimamente relacionado ao centro escrotal e fecal da corrupcao brasileira, que sao os clubes de futebol.

    nunca vi tanto corrupto, tanta carca?a podre por dentro quanto nos clubes. o cartola ? um criminoso. os passes dos jogadores sao heranca da escravidao. o futebol e a musica continuam sendo as unicas formas consistentes dos negros ascenderem socialmente no brasil. o futebol ? o bico que alivia a pressao das massas, engasgadas com tao poucos minimos salarios.

    nao era verdade que o governo ditador liberava a catraca do maracana em dia de greve ou manifestacao?

    entao, que diabos de contradicao ? essa? por que nao ou?o ninguem - fora o pel? - protestar (consistente e ativamente) contra o esquema de corrupcao que a fifa comanda?

    o futebol, em muitas instancias, ? mais importante que o governo. tenho a impressao que os cadernos de esporte sao muito mais lidos que os de politica. entao por que continuar venerando tanto essa 'mulher', nitidamente gostosa, mas tao vagabunda? (desculpem-me, feministas; o futebol tamb?m tem isso, ? coisa de homem no brasil.)

    enfim, estou mandando uma mensagem assim, de improviso, sem prop?sito de ofender ninguem. s? quero entender um pouco, ouvir outras opinios de pessoas que tamb?m sao (menos ou mais) de esquerda (considero 'de esquerda' quem quer e sonha com um brasil melhor para todos os brasileiros) e que (mais ou menos que o patrus) gosta de futebol.

    saudacoes.
    10:46 am
    Didi, por Carlos Heitor Cony
    RIO DE JANEIRO - Que Pel?, Garrincha, Jair da Rosa Pinto, Nilton Santos, Zico, Rivelino, G?rson, Zizinho e Rom?rio me perdoem. Mas o maior jogador que vi jogar foi Waldir Pereira, o Didi, que conheci com a camisa tricolor do Madureira e, mais tarde, com a camisa tricolor do meu time, o Fluminense.

    Vestiu outras camisas, inclusive aquela desbotada da antiga sele??o nacional, quando foi bicampe?o mundial. Em 1958, na Su?cia, Pel? foi o her?i. Em 1962, no Chile, foi Garrincha. Mas nas duas ocasi?es, o maestro, o eixo sobre o qual o time girava, era Didi.

    Nunca houve jogador elegante como ele. A imagem que Nelson Rodrigues criou ? definitiva: o pr?ncipe de rancho, o pr?ncipe et?ope que desfilava arrastando um manto de arminho e p?rpura.

    Devo a Didi o meu afastamento da torcida em campo. Quando o Fluminense vendeu seu passe para o Botafogo, jurei nunca mais assistir a jogo do meu time. Com rar?ssimas exce??es, cumpri o juramento.

    A hist?ria oficial garante que ele inventou a folha-seca num jogo da sele??o contra o Peru, em busca da classifica??o para a Copa do Mundo. N?o foi bem assim. Foi numa partida do Fluminense contra um time su??o, cujo nome, traduzido, era "gafanhoto". A camisa dos caras era verde, da? o nome.

    Foi no Maracan?, nas balizas que foram dedicadas a Ghiggia, quando deviam ser dedicadas a Didi. Ali ele marcara o primeiro gol no est?dio, num amistoso Rio e S?o Paulo. Ali ele fizera a primeira folha-seca, o chute que fazia da bola uma pluma ao vento, tal como a mulher, segundo o Duque de M?ntua no "Rigoletto": mudava de inflex?o e de pensamento.

    Entrevistei-o uma vez, em sua casa na Ilha do Governador. Ele n?o era elegante apenas em campo. Nunca entrevistei o Aleijadinho nem o Machado de Assis. Mas acho que j? entrevistei um artista genial.

    Por quem dobram os sinos de Hemingway? Agora sei: Dobram por Didi...
    10:42 am
    resposta ao Ricardo
    poize, meu velho. entendo o que vc quer dizer com 'bruta afei??o'. eu tbem sinto isso, afeicoes brutas ou brutais, que sao doces e amargas. por exemplo, com sao paulo. esse caso ? ainda pior porque para abandonar sao paulo, eu abri mao de coisas que me fazem muita falta e que nao encontro em nenhum outro lugar. posso achar coisas diferentes mas sao paulo tem uma caipirice (que ?s vezes ? brega, ?s vezes ? s? luar e estrelas) misturada com cosmopolitanica (que tem seu lado xenof?lico, idealizador do estrangeiro), misturada com a forma boa como o subdesenvolvimento faz as pessoas se aproximarem mais (ou darem-se tiros na cara), misturado com uma latinidade (que tbem tem seu cunh?o de 'latrinidade') em circulos, enroscado, emaranhado de dores cerveja e coisas inuteis, mas com l?grimas verdadeiramente vivas e riso tbem. rica, meu velho, noto aqui como o riso dos americanos ? quase dram?tico, como se fosse nao uma funcao biologica mas uma obrigacao social, algo que se tem que fazer em determinadas horas, durante certos eventos sociais. a gargalhada nao sobrevive ao politicamente correto. por isso, o americano precisa do humor negro de gente como howard stern (assistiu 'private parts'? assista!) para rir. e aqui tbem se chora muito menos. isso ? duro, meu irmao... abracos saudosos
    10:41 am
    Mensagem do Ricardo
    Sabe que, naquela ?poca, a Mariana (Princezinha, lembra?) j? andava me paquerando e, como deu pr? notar, atingiu os objetivos...

    Larguei a Raquel para ficar com a Mari, mas, depois de um tempo, bateu um puta peso na consci?ncia por ter largado uma menina inteligente para ficar com uma gostosa...

    Hoje eu acho que n?o foi bem por a?... A Mari n?o era t?o burra e o problema da Raquel estava muito al?m da simples falta de charme feminino... N?o sei se j? entrei nos detalhes, mas ela est? com uma filha (em produ??o 'independente') e planeja - acredite - ter outro beb? em breve... Ela comentou que, assim que terminar a faculdade (ela largou v?rias vezes o curso, aquelas coisas de gente perdida...), quer arrumar uma vers?o mais modesta de Luciano Zafir para incub?-la de novo...

    ? foda!

    Mas, apesar disso tudo (e inexplicavelmente), tenho uma bruta afei??o por ela... fico com d? por v?-la dando essas cabe?adas, gostaria de ajudar em alguma coisa, mas n?o vou nem pensar em me meter nessa fria...

    Depois dou mais detalhes... ela fez anivers?rio esta semana e deu uma festa num lugar grotesco...

    Abs,

    Ricardo
    10:40 am
    Resposta a Carlos
    carlito -

    vou escrever em portugues. ? mais f?cil e eu sei - vc me controu - que vc entende.

    ainda corro a maratona de procurar um lugar para morar. se deus quiser, esta semana se resolve. mande 'vibras'! tenho algumas possibilidades e uma especialmente me agrada e que, por coinscidencia (ou nao) fica do lado do seu ex-apartamento. adoro a ?rea. ? o melhor de nova york nesse momento. nem lixo nem luxo. tenho a impressao l? que tinha do bairro onde eu cresci em sao paulo. sao paulo, como vc sabe ou pode imaginar, ? uma cidade feia e suja. ? manhattan de terceiro mundo, com 20 milh?es de pessoas divididos entre os que andam de ?nibus, os que andam em carro da pol?cia, e os que andam com carros importados. uma trag?dia triste. mas dentro dessa cidade feia tem um bairro que sobrevive a toda brutalidade, que ? onde eu me criei. se chama vila madalena e apesar de existiram muitas vilas em sao paulo, esta ? a mais fiel ao nome. parece mesmo uma vila, com coloridos cotidianos, bares para tardes de s?bado, livrarias; tenho mesmo a impressao que a vila madalena desafia a ciencia da meteorologia: enquanto chove no resto de sao paulo, o c?u ? azul na vila. ? sempre azul na vila porque o azul est? no coracao e nos olhos das pessoas. e sabes que: tenho essa impressao tbem em clinton hill-fort greene. tem gente de verdade, parece uma vila, com os cafes, as pessoas misturadas, as escolas, perto de tudo mas que 'stands out', pode ser uma ilha para atravessar os dias mais dif?ceis. sei que vc me entende... te cuento que comecei um curso de arte com um artista brasilera buenissima. tres horas por sabado. me senti crianca de novo. e cercado de mulheres. nao ? bom? muito papel, cores, brinquedos em geral (folha de aluminio, madeira, isopor, lixo, etc.), s?bado e mulheres divertidas. que sorte!... hoje ? domingo mas amanh? ? feriado. acordei cedo (como sempre). duas amigas brasileiras vem visitar. ficam aqui uns dias. vamos sair e passear. matar saudades. ver nessa cidade louca os tantos festivais, exposicoes, pessoas, pra?as, campos, etc. vai ser bom... bueno, camarada. fico por aqui. escreva mais sobre todas as belezas da italia. fico com inveja mas tbem feliz por imaginar que existem essas coisas, veroes na italia, aulas de pintura, canais, parques, jardins. deve ser muito lindo mesmo. vc merece tudo. aproveite por todos n?s. um abraxo.
    10:36 am
    Mensagem de Carlos
    como estas amigo?

    sabes que la semana pasada estaba escribiendote y se corto la conexion
    estaba en un cyber cafe (el miercloes finalmente me instalan en casa el
    telefono) y nunca mas se pudo usar ninguna maquina... jajajaj re raro pero
    el cyber espacio es asi, no?

    che como estas? el trabajo, la vida, etc? contame...

    yo estoy bien la casa que encontramos es hermosa, jardin y verde, realmente
    mejor de lo que me imaginaba... estoy llendo bastante a venecia, manana voy
    todo el dia a una clase de historia del arte y dibujo y pinto casi todos los
    dias... es muy raro este cambio ahora que ya esta todo mas estable es mas
    raro x que hacia muchisimo que no trabajaba y me dedicaba solo a mi y a lo
    que me gusta... es muy desafiante y me gusta!

    para mi cumple estube en Verona que es hermosa y despues al lago Como que
    es increible.
    ayer estube en una fiesta muy buena te cuento que aca se lo pasa muy bien me
    gusta la gente y ya entiendo todo el italiano, a mi me entienden x que
    mezclo portugues italiano y argentino asi que les causa gracia y a mi me da
    risa.

    Estoy por empezar a partir del miercoles a trabajar para un estudio de aca,
    les hare una ilustraciones y una senora quiere que le haga un retrato...
    jejejje es todo tan raro para mi!
    Ojala que podamos hacer algo juntos ya sabes que is me necesitas podes
    contar conmigo.

    Juliano disculpa que tarde tanto en contestar pero esto de los cyber cafes
    no es para mi ya ves que siempre me pasa algo... es un incordio...
    pero ya esta semana estare de nuevo alli me bajare plink y ya te avisare!!!!

    x lo pronto pasalo bien y manda mis saludos a todos x ahi... se los extrana
    gente tan calida y divertida... yo lo pase muy bien en Star.

    Un gran abrazo!!!!!!!!!!!!!!!!!!!


    Carlos
    10:35 am
    Resposta ? Andrea P.
    andreasa - nao pelo ministro (era ministro? cartola? da fiesp? all the above?), mas pela asa de voar, para os seus voos altos e baixos (mergulhos ?s vezes), e por esses nossos amores dificeis... para os que querem virar hacker, o ricardo dominguez deixou o email dele (nao deixou?) no final da entrevista... quem sao essas pessoas que estao lendo? como chegaram os texto? me conta isso... me conta da vida tbem. que seja como um blue desencontrado, fantasia nossa, com trilha de cazuza e legiao para filme-clip de glauber nos anos 90. me conta. me narra, me explica, me chora baixinho de noite, ou no ?nibus das seis... eu quero ouvir a tua voz. me convence a acreditar nessa sua dor ingrit?vel e que nem o choro aplaca... eu espero. to esperando. com saudades. escreve. meus beijos, seu amigo. (velho)
    10:35 am
    Mensagem da Andrea P.
    Querido JU!!

    Saudades saudades saudades... vou ler as tantas coisas que voc? faz e ficar feliz com sua presen?a virtual! v?rias pessoas tem lido a sua entrevista com o cyberzapatista e querem virar hackers ... e agora? Quando voc? vem dar um curso pra gente??!!!

    Beijosssssssssssssssssssssssss
    Wednesday, May 23rd, 2001
    8:00 am
    minha gente -

    envio em anexo um novo ensaio. nele aparece com mais for?a a minha tend?ncia de escrever sobre temas que n?o est?o muito em voga e de opinar pretenciosamente e tamb?m com certa superficialidade sobre quest?es que n?o conhe?o profundamente.

    decidi escrever sobre jesus cristo, a Igreja Cat?lica e as igrejas em geral. e reconhe?o que fui taxativo entre outras coisas em rela??o aos crist?o atuantes, mas ? porque eles ou pelo menos uma parte deles ? tradicionalmente muito chata e muito burra e muito angustiada. tomado por este sentimento sinto que acabei deixando de falar do lado humanista do cristianismo e que tamb?m est? ligado ? mesma institui??o.

    agora, ao escrever esta mensagem, me ocorreu que falei s? sobre o lado ruim da igreja porque polarizando - de um lado o bom Cristo e de outro a Igreja m? - ficou mais f?cil real?ar virtudes interessantes do Cristo. alem disso, espero que vcs, se tiverem paciencia para ler at? o final, perdoem sobretudo a minha presun??o que vem de uma conhecida necessidade de me mostrar e me afirmar. ela aparece ingenuamente em todas as passagens em que eu digo como as coisas est?o erradas e como EU faria para que tudo fosse melhor.

    mas mesmo por esse defeito e muitos outros, convido vcs a perdoarem a minha imperfeita humanidade para talvez encontrarem alguma virtude no texto, que eu acho que ele tem. me digam vcs.

    Abra?os a todos, Juliano
    8:00 am
    A divina humanidade do Cristo

    Para Patrus Ananias, que n?o perdeu o humor nem a do?ura.

    Onde falo sobre o que sobra da hist?ria do Cristo se tiramos os milagres sobrenaturais.

    Outro dia eu participava de um bate-papo com uma celebridade na internet e me chamou a aten??o a curiosidade de um dos f?s que queria saber se o convidado "acreditava em Jesus Cristo".

    Para n?s, latino-americanos, essa pergunta quase que s? tem uma resposta. ? sim. Um sim por um lado cada vez mais reticente e por outro, mais obcecado - depende de que lado da cruz voc? esteja. Poucas pessoas - ainda assim meio culpadas - reconhecem publicamente que n?o cr?em no maior m?rtir do Ocidente.

    Afinal foi catolicismo, tanto ou mais que as armas, que conquistou a Am?rica. Por isso somos o continente mais cat?lico do planeta. At? quem n?o simpatiza com a Igreja e nunca foi obrigado a ir aos cultos, se sente pouco a vontade ao 'infringir' regras de tratamento como, por exemplo, n?o usar mai?sculas para escrever 'filho de deus'.

    Eu n?o sei quanto a voc?s, mas detalhes como esse agem no irracional e me incomodam. Eu tenho medo de estar cometendo um pecado e por via das d?vidas acabo escrevendo 'como se deve'. Uma pessoa que se benze na frente de igrejas e cemit?rios me faz pecador por tabela e mesmo que eu n?o me sinta assim 5 minutos depois, durante esses 5 minutos eu penso que ? mais f?cil n?o ir para o inferno quando a sua fam?lia imp?e desde cedo o h?bito de ir ? missa.

    Mas n?o ? s? a culpa que incomoda quando me perguntam se eu 'acredito no Cristo'. Tamb?m fico frustrado, constrangido por n?o ter oxig?nio para dizer mais sobre um tema que ? verdadeiramente incr?vel. Eu sinto mal-estar s? de ouvir a palavra 'Jesus' porque ? exce??o de um curso na faculdade sobre a b?blia, todas as vezes que o tema apareceu numa conversa, era para eu ouvir a mesma coisa: que sem eles, o pai-filho-espirito-santo, eu vou para o inferno.

    Perto da minha casa, em cima da entrada do metr?, tem um out-door com um padre - acho que numa pose disciplinadora, de bra?os cruzados - e um texto assim: "sofrendo por ter abortado, venha para a Igreja" ou alguma coisa ainda pior. Como se o aborto fosse f?cil para a mulher, n?o fosse uma cirurgia e n?o fatalmente machucasse o instinto materno.

    O ABC do cristianismo para os convertidos ? o mesmo; cat?licos e protestantes concordam mais que discordam entre si e usam o mesmo 'livro did?tico' para o culto. O crist?o praticante de hoje me d? em geral uma impress?o ruim: de ser um tarado reprimido, ou de precisar da aceita??o de um grupo, ou de depender de r?deas morais para conter as pr?prias obsess?es, ou ainda de ser t?o desmotivado que quer garantir-se na pr?xima vida - porque essa n?o est? valendo a pena.

    Os que s?o crist?os por imposi??o familiar, participam do culto formalmente e est?o ali como em outras situa??es p?blicas: obedecem uma forma de conduta, um vocabul?rio, uma dan?a para n?o chamar a aten??o dos outros e poder ignorar secretamente o que acontece do lado de fora. e ainda tem um ?ltimo grupo, o ?nico que se sobressalta entre os canalhas, que ? a dos defensores de causas sociais que usam o poder simb?lico e a for?a institucional da igreja para confrontar o estado e chegar ao indiv?duo - coisas que os militantes pol?ticos tradicionais ou cientistas t?m mais dificuldade de fazer.

    ***

    Para responder se eu acredito no Cristo, eu preciso antes esclarecer quais s?o as duas outras solu??es l?gicas para essa d?vida escondidos no sentido ?bvio.

    A primeira se refere ? historicidade do Cristo. N?o sem a mesma culpa descrita a cima eu questiono: ele como indiv?duo existiu, foi homem, esteve na terra, ou ? um mito composto pela imagina??o de gera??es? H? quem duvide que Shakespeare, o maior dramaturgo da Inglaterra, era uma pessoa; existem estudiosos que afirmam que as pe?as atribu?das a ele poderiam ter sido escritas por pessoas diferentes; e veja que Shakespeare nasceu mais de quinze s?culos depois do filho de Jos? e Maria. Outro exemplo para sustentar essa d?vida ?, para citar um caso brasileiro, Zumbi dos Palmares, que teria morrido em combate mas que renasceu muitas vezes - era visto, inclusive - enquanto lenda para encarnar o desejo de liberdade do escravos negros.

    Da mesma forma as hist?rias de pregadores messi?nicos que viveram pelo Oriente Pr?ximo poderiam ter sido 'digeridas' pela papa cultural povo daquela ?poca - papa esta que misturava Oriente e Ocidente, Roma e P?rsia, junto com ?frica e ?rabes - para sintetizar (ou sincretizar) esse personagem t?o contradit?rio, que uma hora roda a baiana com os ambulantes na porta do templo, outra caminha sobre as ?guas e em outra ainda enfrenta o preconceito da multid?o para defender uma prostituta.

    Outra possibilidade de resposta, a mais comum, ? que a quest?o se refira ? natureza divina do Cristo, que ele n?o apenas existiu como humano como era uma vers?o primitiva do Superman, com poderes ilimitados para fazer o bem e combater at? a morte o arquinimigo de seu pai, o cruel L?cifer, anjo ca?do que traiu a confian?a de deus ambicionando tomar o poder atrav?s de uma rebeli?o - rebeli?o esta n?o estranhamente comparada no curso do tempo a todas as revoltas contra o poder institu?do e mais recentemente ?s que deram a luz aos estados comunistas contempor?neos; lembram-se da hist?ria de que comunistas comiam criancinhas?

    Anedotas ? parte, os que acreditam nessa vers?o acreditam entre outras coisas que: 1) Maria concebeu e pariu seu filho sem perder a virgindade; 2) que o Cristo marcou um encontro no meio de um rio e chegou no local andando e sem se molhar; 3) que sem estar b?bado ele atendeu a um pedido de sua m?e para transformar ?gua em vinho; 4) que ele para provar que era o profeta teria curado cegos, aleijados e ressuscitado um amigo; 5) que ele teria dado de comer a uma multid?o com s? um peda?o de p?o e outro de peixe.

    As igrejas est?o muito caducas para imp?r aos homens e mulheres do s?culo 21, que aprendem f?sica, qu?mica e hist?ria na escola, a ver o mundo pelas mesmas lentes de gente de um mundo pr?-cient?fico, onde os pressupostos morais eram passados de gera??o em gera??o na forma de hist?rias fant?sticas, de drag?es e elfos e sereias e tantos outros seres mitol?gicos de corpo humano ou parcialmente humano e com poderes empresados do mundo natural como o fogo, o trov?o, a chuva. E as igrejas, que se auto-conferiram o poder de decidir quem entrar? no suposto para?so, usam esse poder para chantagear levando as pessoas a dizer que sim, que esses absurdos aconteceram como diz a b?blia.

    Eu fico indignado com o sil?ncio coletivo que protege a b?blica e ao mesmo tempo classifica de primitivos outros que usam o mito para interagir com o mundo. Ao mesmos eles n?o t?m a vis?o racional para contradizer-se o que no nosso caso nos torna hip?critas no melhor dos casos.

    Agora ? o momento de superar a hipocrisia.

    ***

    Sobrou uma possibilidade de resposta ? pergunta sobre a cren?a no Cristo e que se refere n?o ? exist?ncia dele ou ? natureza divina dele, mas ? mensagem e o exemplo creditados a ele e que sobrevivem momentos muito diferentes das civiliza??es no Ocidente.

    Essa alternativa me tranq?iliza porque mostra que esse aspecto foi e continua sendo maior que ?s organiza??es que tentam institucionaliz?-los. S?o mensagens que resumem uma proposta de humanidade que n?o existia antes e que passa a diferencia o ser humano de depois. Apesar do meu conhecimento de hist?ria Antiga ser limitado, eu tenho a impress?o que at? o Cristo tirar a vida era um ato sem import?ncia e amplamente aceito socialmente como hoje ? aceito ca?ar borboletas.

    A escravid?o n?o era questionada assim como n?o se questionava que um escravo, apesar de ter as mesmas caracter?sticas f?sicas de um soldado ou de um sacerdote, ele vinha sem alma. ? essa conceito libert?rio e humanista que passa a existir nas pessoas influenciadas pelo Cristo. At? ent?o a liberdade dependia do estado que regulava o poder de cada casta. Depois, o indiv?duo p?de ter consci?ncia de si para reconhecer que a liberdade a liberdade n?o ? um atributo da civiliza??o e portanto n?o pode ser regida pelo estado. ? o esp?rito que, quando tem consci?ncia de si, ? livre independentemente do corpo, que ? apenas um instrumento para chegar ? liberta??o. Torna esta proposta ainda mais revolucion?ria o fato de a sua realiza??o pressupor a a resist?ncia e a luta pac?ficas, sem viol?ncia.

    ***

    E o que foi que o Cristo disse e que sobreviveu na b?blia cat?lica inclusive quando os cat?licos inquisidores sangravam e matavam - muitas vezes queimando - pessoas n?o se aceitavam a estrutura de poder do Vaticano? O que estava escrito no livro importante do mundo ocidental quando os cat?licos apoiaram o genoc?dio aos judeus pelo partido Nazista alem?o na primeira metade do s?culo? Que mensagem estava codificada de uma forma t?o ?bvia a ponto de sobreviver dentro de uma estrutura apodrecida como a do catolicismo mesmo sendo esta mensagem a perfeita condena??o dos atos dessa institui??o?

    - Atire a primeira pedra quem nunca pecou...

    Ele, por exemplo, teria desafiado uma multid?o usando o corpo dele para proteger uma puta qualquer que estava para ser apedrejada na rua. Se fosse o Superman era f?cil porque o corpo de a?o n?o sofre com pedras e o dele era de carne. E por ser filho do criador, ele podia ter usado um milagre fazendo chover pimenta malagueta apenas no rosto da turba arruaceira ou provocado um eclipse do sol e projetado numa tela est?tica aquele filme em que a Sharon Stone cruza as pernas sem calcinha ou convocado as cobras do deserto a vomitar no ch?o azeite de oliva sob os p?s dos malvados enquanto ele levava Maria Madalena para um lugar protegido. Miss?o cumprida!

    Mas apesar de supostamente dispor dessas vantagens, ele usou a palavra - n?o a espada, n?o o fogo, n?o a p?lvora - para dar consci?ncia ? multid?o de que o pecado era o mesmo da prostituta e de todo mundo, de sermos de carne e imperfeitos, em aperfei?oamento, e que perdoar ao outro - e n?o conden?-lo - ? o que deixa que a gente tamb?m se perdoe e continue vivendo. Nesse sentido d? para dizer que ele fez cegos enxergarem, enxergarem por dentro, como poderia dizer que ele fez os tristes darem risada, os retardados pensar, ou qualquer imagem que represente um ganho de consci?ncia.

    - Amai ao outro como a si mesmo...

    ? uma frase t?o simples que parece uma equa??o matem?tica. Se o outro que n?o sou eu ? o meu inimigo ent?o a condi??o para eu sobreviver ? que este outro morra e o mesmo vale para ele. Se sempre que eu tiver o poder para submeter o outro ? minha vontade eu usar esse poder, a minha vida se resumir? a mim e eu sozinho n?o existo porque n?o tenho nada para me espelhar. Amar ao outro como a si ? o princ?pio da n?o-viol?ncia e que, ao contr?rio do que parece, exige mais coragem do que o enfrentamento. Matar ao outro ? o mesmo que se matar; condenar ao outro ? se condenar; ignorar ? ser ignorado e se ignorar. ? incr?vel que h? dois mil anos essa frase existe e continua desafiando a compreens?o do Ocidente t?o orgulhoso de seu cleaning e suas tecnologias.

    S?o mensagens como essas que me convencem da divindade do Cristo, uma divindade fundamentada no amor; amor que ? a combina??o do esp?rito divino com o instinto animal e que existe em criaturas mais desenvolvidas como chimpanz?s e golfinhos mas que se manifesta com mais clareza nos seres humanos. Amar que ? ao mesmo tempo o sentimento mais essencial e mais sofisticado; que ? o come?o e o fim do movimento que cria a vida.

    O 'feiti?o' do Cristo foi ter mostrado como compartilhar o p?o, dando o exemplo para a multid?o de seguidores abrir as suas bolsas e fazerem o mesmo, dando a impress?o de que o p?o se multiplicava quando o que se multiplicava era a boa vontade. Isso ? o que em sentido figurado pode-se chamar de uma mudan?a da ?gua para o vinho.

    Eu odeio a ladainha crist? de que o Cristo morreu para (som de violino em funeral) perdoar os pecados dos homens. Essa forma de explicar a mensagem implica numa d?vida que me escraviza ? igreja nasceu comigo e n?o pode ser paga de outra forma a n?o ser com a minha vida - e que sentido tem deixar de viver em agradecimento a quem morreu por mim?

    Quanto a morrer pelos homens (e pelas mulheres tamb?m), o sensacional desse sacrif?cio ? a demonstra??o de coragem. Ele continuou a pregar apesar da perspectiva de ser preso e morto, dando um exemplo de resist?ncia pac?fica ? opress?o que n?o defendia uma igreja ou um estado, mas apenas o ser humano, independente da ra?a, do credo, da cor, da prefer?ncia sexual, da religi?o, da nacionalidade, do conhecimento. O Cristo viveu como pobre, entre os pobres e morreu como pobre ao lado de ladr?es comuns. E para refor?ar o recado, ainda deu a outra face.



    ***

    Esse legado, que vem sendo resgatado por l?deres libert?rios como Gandhi e Martin Luther King, apareceram para o Ocidente com o Cristo. Como as igrejas incorporaram essa mensagem ? b?blia, o sentido da palavra 'crist?o' e seus derivados se predeu a valores uniformizados, moralizados, que asfixiam a o conte?do da mensagem.

    Uma poss?vel solu??o para o tema ? arrumar um sufixo mais moderninho para o radical "Cristo". E eu acho bacana, por exemplo, as palavras 'cristianismo' e 'cristianista', correspondendo ?quela proposta ou ?quelas pessoas que tem interesse nas id?ias do Cristo independente do misticismo capenga das igrejas - admito tamb?m gostar desses termos porque eles soam um pouco como 'marxismo' e 'marxista'.

    Nessa perpectiva, rompa voc? tamb?m com os preconceitos d? uma chance a esse cara que nunca escreveu uma palavra e ainda assim, s? com a palavra e a atitude, desafia a tecnologia do sat?lite e da internet.
    Friday, May 18th, 2001
    10:20 am
    sensa?ao de loucuras. tentativa de sucumbir suavemente ao mist?rio. nao ao acaso, nao ?s formas f?ceis de escapar atrav?s de pseudo-loucuras.
    Friday, April 27th, 2001
    10:00 am
    tarde suburbana
    Gritos de criancas brincando nas tardes de sabado.
    Me sinto tao velho aos 30 anos?
    Nao faco serenatas
    Mas ?s vezes canto pelas ruas
    A primavera.
    Sinto ainda flocos de luz no coracao,
    nao tao intensos como os do cinema
    mas verdadeiros.
    Tem ?ngulos em que Nova York parece bombardeada
    Ou abandonada numa esquina.
    Pontes Caminh?es concretos sinais de tr?nsito
    S?o tristes porque s?o s? (e se sabem)
    Pontes Caminh?es concretos sinais de tr?nsito
    Mas eu nao sou indiferente.
    9:48 am
    s?bado sem sol
    garoa fina
    vento frio
    ceu cinza
    nos s?bados, morar perto dos amigos ? fundamental
    9:44 am
    sem titulo
    Fazer cheiros com se fosse musica
    musica como um poema
    o poema como um teorema
    o teorema como um casal dancando salsa...
    Monday, April 16th, 2001
    12:35 pm
    Por uma criatividade politizada
    SINOPSE: Onde eu tento redefinir o termo 'arte pol?tica' e defendo a necessidade do engajamento do obra de arte a seu contexto social. Ou sobre os 'podes' e os 'deves' do artista.

    Arte pol?tica. Os artistas ficam de orelhas em p? quando ouvem falar em politiza??o da arte. 'Arte politizada' significa mais diretamente 'arte engajada' o que quer dizer uma arte ancorada em um projeto, em uma ideologia. 'Arte engajada' lembra o que os artistas sovi?ticos, chineses, cubanos faziam e que era na verdade uma forma sofisticada de propaganda do estado. E por conhecer a experi?ncia traumatizante da conviv?ncia entre artistas e estados autorit?rios de esquerda - ditos socialistas - ? que eu entendo por que o artista hoje prefere a aliena??o ao engajamento.

    Tudo que o artista n?o deve querer ? ser for?ado a defender aquilo que n?o acredita e - pior ainda - negar o que acredita. O artista precisa ter a liberdade de expressar com integridade aquilo que quer - e nesse sentido ser um dos principais term?metros da democracia. Quando o direito ? express?o art?stica - qualquer que seja ela - estiver sendo questionada pelo estado, ? porque a ess?ncia deste estado ? antidemocr?tica, aristocr?tica, elitista, e/ou segregacionista.

    Contanto que a express?o artista seja n?o-violenta, a arte n?o apenas pode como deve ser pol?mica; e mais, a arte - n?o necessariamente mas ? bom que seja - pode ser tamb?m inc?moda, porque o inc?modo ? mais efetivo para provocar movimento. A arte e o artista devem ser livres e a sociedade deve sempre testar em si a condi??o de aceitar o diferente experimentando-se e descobrindo-se atrav?s da arte.

    Eu quero, contudo, defender que nem toda a 'arte politizada' ? negativa. E n?o ? por ela ter sido uma vez domesticada pelo estado autorit?rio - de esquerda e tamb?m de direita - que o artista tem que abster-se de viver integralmente seu compromisso com a sociedade.

    Quando eu falo de juntar arte e pol?tica, isso n?o significa congelar a criatividade em um discurso moral unilateral; pelo contr?rio, significa subverter o discurso moral atrav?s da criatividade art?stica. A arte deve - considero que seja mais obriga??o que dever - estar consciente de onde est? a fronteira moral da sociedade que cega o cidad?o com direito ? cidadania o que permite a sustenta??o da opress?o a outros seres humanos.

    O que a sociedade precisa ver ? justamente aquilo que ela tenta esconder. ? obriga??o do artista estar existencialmente onde haja gente com capacidade de viver plenamente a sua cidadania e que n?o faz isso por ter nascido pobre.

    Para isso, o artista n?o precisa ser m?rtir, exilar-se, tornar-se um monge ermit?o como o Zaratrusta; por outro lado, tamb?m n?o quer ter como modelo, como objeto de inspira??o, a si mesmo e refletir seu mundo maravilhoso e complexo num exerc?cio de auto-contempla??o narcisita - n?o que isso n?o possa ser belo mas que ? central o compromisso do ser humano ser humano com os outros seres humanos.

    O artista n?o pode e n?o deve alienar sua express?o - uma express?o t?o fundamental porque n?o depende do filtro racional - das causas sociais. Quer dizer, a arte ? a ponte de contato mais sublime e direta da sociedade; ? ela que faz as classes, as culturas, as ideologias, as quest?es, as morais diferentes se encontrarem, se espelharem e dialogarem. ? atrav?s da arte que o humano consegue expandir a sua capacidade de interpreta??o, de comunica??o, de toler?ncia, de protesto; ? como n?s, seres sonhantes, participamos ativamente da grande dan?a, da cerim?nia - n?o a religiosa - arcaica e arquet?pica que est?o na raiz do humano.

    Fazer arte ? mais que explicar o carnaval; mais que dissecar a dan?a ? entrar na dan?a e assumir a frente da folia e trocar todas as m?scaras e virar anjo, cinderela, vagabundo, policial, prostituta, louco, gal? de novela, favelado. E sobretudo, ? importante que o artista fa?a isso - e n?o o soldado - porque artisticamente ? poss?vel atingir este objetivo sem matar, sem violentar, sem alienar ou afastar o outro que ? diferente.

    J? dizia Bertold Brecht - um dos principais defensores da arte engajada, em uma de suas cita??es mais repetidas - que somos todos pol?ticos, mesmo quando achamos que n?o somos. Mas eu n?o concordo com ele. Ignorar a pol?tica pode ser uma forma de critic?-la. ?s vezes o sil?ncio pode ser mais efetivo que um golpe ou um grito. Mas para isso, o sil?ncio precisa ser consciente, precisa responder a uma proposi??o da sociedade.

    Quando ignorar a sociedade ? um ato de covardia, mais por medo de romper sua integridade interior que pelo de apanhar, a manifesta??o art?stica perde a vitalidade. O artista nessas condi??es opta por cercar-se de outros artistas com as mesmas condi??es em guetos para poder existir em um mundo idealizado onde todos se vestem diferentes mas discutem os mesmos temas. A maioria dstes at? t?m honestidade intelectual mas n?o conseguem aceitar o compromisso de responsabilidade - n?o com o estado mas - com os outros seres humanos oprimidos pelo estado.

    N?o se trata de ignorar o estado mas de fazer da arte a nova arma, de entregar-se ao que ? doloroso no mundo, ao que n?o se quer falar, ao ?bvio ululante; se trata de tirar a arte do museu, de tirar a arte da parede e lev?-la para o espa?o p?blico, de desenjaular a arte, de deixar que ela se alimente dos cad?veres morais da sociedade e torne o di?logo social mais claro e efetivo. A arte pol?tizada deve for?ar-se para fora dos segundos cadernos e para dentro das capas de jornais.

    A arte a que me refiro n?o precisa ser entretenimento para divertir como n?o precisa ter ideologia para questionar. O que ela precisa fazer ? tocar os outros, a maior quantidade poss?vel de outros, seja pelo riso ou pelo choro, sem afetamento e consciente de sua import?ncia - n?o digo hist?ria e sim - para a sobreviv?ncia do ser humano em boas condi??es no nosso planeta azul.

    Eu acredito que o artista ocupa a fun??o de revolucion?rio dentro da sociedade; ? ele que planta explosivos nos co?gulos morais que justificam a exist?ncia de classes dominantes. ? ele que se submete, que d? o exemplo arriscando-se, tocando o n?, expondo-se como um filme virgem que se deixa impressionar pelo que existe de mais vital nas agrupa??es humanas que ? a for?a que brota de quem luta para sobreviver.

    Para usar outra met?fora, o artista deve deixar-se contaminar pela podrid?o social e na medida do poss?vel, ag?entar o processo infeccioso para desenvolver anticorpos naturais, ?nicos e originais para combater a doen?a. E finalmente, sem ser metaf?rico, considero que o artista deva ter curiosidade de conhecer o esgoto para onde vai a merda depois de dada a descarga.

    ? essa a experi?ncia que est? acima do 'branco' criativo, do sil?ncio do artista. A carne da sociedade ? t?o vibrante que n?o h? regime criativo quando se est? dentro dela; h? temas para todos; quanto mais fundo o artista achar que pode ir, melhor para todos.

    ? importante, no entanto, lembrar que o trabalho art?stico n?o ? uma competi??o e que quem for mais longe n?o vai ganhar uma medalha. N?o se trata de ser melhor que os outros mas de ser o melhor de si, buscar mais radicalmente a si. Todo mundo tem limites que podem ser trabalhados conscientemente para expandir-se e alcan?ar novos limites. O mais importante ? manter a honestidade intelectual e a compaix?o, uma para evitar que o artista v? mais longe que pode ir e a outra para estimul?-lo a continuar explorando as mil faces da vida.
    12:33 pm
    Resposta ao Ricardo
    rica, vc ? fant?stico! quero manter contato com vc sempre. morro de rir com as suas mensagens mas mais do que tudo, admiro muito a sua capacidade de chutar o balde - mesmo que vc tbem tenha que molhar os p?s... sobre o mba, nao sei a diferenca entre mestrado lato e stricto. sorry, nao falo latim... ainda sobre mba - e respondendo ? sua provocacao dizendo que eu sou meio comunista - veja (no mba) como ? sofisticada e din?mica a estrutura de poder do capitalismo, principalmente do capitalismo mais recente que usa tecnologia e envolve milhares de esfor?os coordenados. por outro lado, acho que os americanos que inventaram isso e acreditam nisso fazem da pr?pria vida um objeto de consumo sup?rfluo. isso j? nao ? legal. parafraseando o che - que deve se revirar no t?mulo, todas as partes inclu?das - hay que ser capitalista sin perder la ternura jamas... mais que ternura, eu diria a compaix?o. o compadecimento ? uma forma quente de socialismo... sobre as mulheres, tamb?m estou no negativo. quando tiver algo (bom) para contar (vantagem), escrevo... te mando em anexo um texto recente. ? meio cabe?ao mas como eu nao tive que aguentar tanto o pessoal da UJC e convergencia quanto vc, ainda tenho paci?ncia... sobre o homem de m?rmore, ? cabe?ao, sim. mas no estilo cidadao kane mais que no estilo godard. bem diger?vel... sobre a terapia, manda ver e fa?a valer o seus minutos. ? sinal de sa?de... um grande abra?o do seu amigo, J
    12:33 pm
    Carta Ricardo
    E a?, J?

    Eu j? ouvi falar desse filme (o homem de m?rmore)... ? legal mesmo? n?o ? muito cabe??o? Eu sei que tem filmes cabe??es que s?o legais tamb?m, mas ando meio de saco cheio de reflex?es tautol?gicas, sei l? o que h? comigo...

    O mestrado vai bem... na verdade, o que estou fazendo ? um curso de p?s-gradua??o lato sensu chamado MBA, na ?rea de Com?rcio Internacional l? na Usp. S?o mais de 400 horas de aula, toda 6a e s?bado, das 8h ?s 17h; bem pesad?o... Tenho a impress?o de que, por a?, MBA significa exatamente o que, aqui, n?s chamamos de mestrado, strictu sensu... Estou enganado? Enfim, o curso ? ?timo... Tivemos aulas de economia e geoestrat?gia at? agora e estou curtindo bastante. Teve uma aula, em especial, que eu acho que voc? iria gostar. Foi com um tal de Gilberto Dupas, sobre globaliza??o e exclus?o social... Voc? que ainda ? meio comunista iria gostar...

    Outras novidades? Bem, mulheres andam em falta por estas plagas. Desde que me separei da ?ltima, a Fabiana (lembra?) acho que ela botou uma macumba em cima de mim; estou nessas ?pocas em que, quando o p?o cai da minha m?o, cai com a manteiga sempre pr? baixo... J?, j? melhora...

    Conheci duas mulheres m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-a-s recentemente. Lindas, simp?ticas, inteligentes etc etc... Mas a?, sabe como ?... Concorridas, esnobes, aquela coisa toda. Para ajudar ainda mais, acho que estou perdendo o jeito com o sexo fr?gil. Tenho a impress?o de que, de tanto tratar bem, acabo assustando, manja como ?? Pois ?...

    Meu ingl?s vai indo. Aulas todos os domingos ? tarde (? mole?), treino quase todos os dias via Internet em chats em ingl?s. T? certo que Shakespeare deve se remexer na tumba cada vez que vou escrever uma frase, mas acho que ele um dia ir? me entender...

    Bom, desculpe tanta demora em responder sua mensagem... At? parece que n?o achei legal t?-la recebido ou qualquer coisa assim, mas n?o ? verdade. Tenho estado de fato muito ocupado, chego em casa de saco cheio, os dias v?o passando e sabe como ?... Bem, ?ltima novidade: estou fazendo terapia! Coisa de bicha, t? sabendo, mas eu estava precisando dar uma relaxada... Estava entre duas op??es: ou eu fazia terapia (R$ 50,00 por hora) ou eu ?a em um puteiro (R$ 80,00). Como estou meio sem grana ultimamente...

    V? se n?o demora tanto quanto eu para mandar not?cias, falou, meu chapa?

    Abs,

    Ricardo
    Monday, April 9th, 2001
    7:44 am
    Arte na rua?

    S?o sinais
    O sil?ncio ensurdecedor
    O sil?ncio total para sufocar gritos
    O silencio an?nimo, ap?tico de todo um planeta

    Ouvi o sil?ncio
    De um planeta que mama entediado
    nas vivas tetas aid?ticas do Novo Mundo
    E gira epil?ptico numa tran?a de canais de TV.

    Mas o homem ? maior que as civiliza??es.
    Ele transcende, salta para dentro do aparente abismo em si
    Para aprender a dizer o indiz?vel e sonhar publicamente
    Uma esperan?a contra os valores motorizados do pobre mundo.

    ? hora da arte crescer dos segundos cadernos
    Elevar a sensibilidade das rotinas dom?sticas e chegar aos funerais,
    Para as manchetes, os esgotos cotidianos, as fam?lias e as escolas.

    Artir
    al?m do adolescente narcisismo
    dos zool?gicos de arte, dos supermercados de arte;
    arte, seja
    a minha moeda ?nica radiante companheira.

    Artir
    a conectar o esp?rito ? internet
    Humana, misteriosa e transcendentalmente
    Org?nica da vida.
    Para enfrentar da brutalidade do poder institu?do.

    Artir,
    Realizar o revolucion?rio cont?nuo desentristezamento
    desencinzentamento da vida
    na raiz da vida.

    Artir,
    Deixar-se enovelar no vortex fractal da consci?ncia.
    Para proteger a vital diversidade, descercar consci?ncias, desprivatizar almas,
    Superar o cancro da guerra.
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