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jules' Journal
 
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Tuesday, May 29th, 2001
10:50 am
Resposta ao Mauricio
mafon - como a gente humanos e mosquinha. custa tanto se ver e mudar, mudar por dentro. enquanto isso somos mosquinhas vaidosas, cheias de si mesmo. nao to falando sobre vc nem eu. alias, estou sim falando de mim. mudar um movimento diferente em muitos niveis diferentes. mudar o fsico rpido - qualquer semana que a gente deixa de comer ou come demais e j se nota. mudar hbitos como parar de fumar, de comer carne, ou comecar a praticar um esporte, j leva mais tempo, uns seis meses para o efeito comecar a aparecer. mudar o futuro da gente leva mais tempo, s vezes a vida inteira. aprender uma profissao, afiar um talento, insistir num sonho, num projeto. os frutos dessa arvore s comecam a aparecer agora, aos 30, e ainda assim muito timidamente, como aqueles primeiros araas amargosos daqueles pzinhos magros que vc j deve ter visto tantas vezes pelas minas. eu invisto, mais ou menos conscientemente, ponho atencao e amor, alguma cisma, e ele vai crescendo sempre devagarinho... mas duro mesmo mudar por dentro. talvez seja consequencia de todas as mudancas menores e mais rapidas, tudo seja reflexo dessa longa e demorada mudanca interna, que est levando de mim muita vida. nem uma nem duas. eu nao sei o caminho, nao sei o que certo. tenho um mapa que achei por a, corrigidssimo por pessoas mais ou menos aptas para a funo de corrigir mapas. e sabe o que, amigo velho: eu continuo sendo quase integralmente o mesmo moleque carente, criativo, cabea dura e timido que fui h 25 anos. nao tem a ver com a minha familia, apesar deles terem agido para definir/mostrar/fortalecer algumas tendencias. mas tudo j estava ali, ao mesmo tempo ao alcance das maos e tao longe de mim. sou eu, quem te escreve, que me conhece tao pouco ainda. e quando falo de crescer, transformar, me refiro a movimentos intimos, nao a coisas genricas como ganhar humildade, ser capaz de amar e perdoar; me refiro a ter coragem de me olhar no espelho e ver onde est machucado e tratar dessas feridas reais e/ou imaginarias. eu sinto que na maior parte do meu dia, eu vivo tanto pra fora, para as rotinas, enquanto dentro de mim eu me prendo num quarto com as luzes apagadas e sozinho, como um lobo ferido que sabe que est ferido mas nao quer a ajuda de ninguem para se tratar, que nao confia em ninguem, tem medo de morrer mas tem ainda mais medo de outras pessoas, tem medo de tudo e dessa forma primitiva, prefere morrer sozinho com a propria dor que arriscar que luz aparecer todo escalacrado e feio e medroso na frente das gentes... bom, isso que eu tive vontade de te dizer depois de ler a sua mensagem. um abraco com saudades. j-
10:49 am
Mensagem do Mauricio
Oi amigo

Gostei de ler sua mensagem. bom saber que os amigos esto de bem com a vida, com os sonhos na ponta da lngua, prontos a se corporificarem em desejo realizado. Sempre achei que voc escreve bem, seus textos so voluptuosos, transmitem muita vida, aquela tenso prpria de quem tem os sensores bem abertos e sabe traduzir os sentimentos em linguagem. Qualquer que sej a ela.
Demorei a escrever sobre aquele seu momento. Mas assim mesmo. Estava passando por uma fase difcil. Ainda estou, mas estou mais purificado, com a alma mais fortalecida. E como dissemos ao outro em outra ocasio: para as amizades verdadeiras o tempo no conta. Inclusive os silncios, quando tomados como medida do tempo. Aquela coisa que custei a entender em minha relao com Mrcia (sua tia) e outros amigos e me levava a sentimentos assim: "puxa, escrevi com a alma to aberta e ela no me responde". Percebi que s vezes ocorre uma situao inversa que nossas carncias projetam. No meu caso, como no respondia para voc, levava esta no resposta comigo e ficava pensando: p , quero responder a mensagem do Juca. O tempo passando... Acabou que voc viajou comigo durante todo este tempo.
Notcias. Reencontrei a Marie aquela fotgrafa suia que voc me apresentou no Empanadas, tempos atrs. Estamos conversando sobre a possibilidade dela trabalhar no meu projeto mais recente, que envolve a produo de vdeos sobre os mitos guarani, o 2 CD, uma srie de livros e um site sobre a cultura guarani.
Estamos tambm batalhando pela segunda vez para ir Europa. Fomos convidados para festivais em Gnova e em Milo. Viagem prevista para o ms de julho. Difcil obter as passagens. O governo brasileiro no d a mnima para as culturas indgenas.
Estou enviando um texto j traduzido para o ingls sobre a cultura guarani e sobre o nosso trabalho. Se voc quiser divulg-lo em algum espao fique vontade.
Um dia desses o Lulu, aquele cara negro que voc conheceu naquele bar baiano , me convidou para fazer uma perfomance potica na abertura de um show de Vnia Abreu, no SESC Itaquera. Foi uma experincia interessante. Pela primeira vez li meus poemas a um pblico desconhecido. Tinha muita gente, moradores de periferia da zona leste. Foi uma experincia muito boa. Uma coisa escrever. Outra interpretar um texto, transmitir o seu rtmo, dar vida s imagens, passar o clima que envolve as palavras. Li coisas minhas, poemas erticos de Drummond (tem uma srie sobre bundas que tima), Manoel de Barros e umas estrias que Alice contava quando tinha 5 anos e eu gravei.
Fiquei com vontade de publicar os meus textos.E de inventar perfomances coletivas mais ousadas.
As crises da vida continuam, algumas em fases bem agudas. Mas aprendi a conviver com elas e manter-me inteiro, no perder a auto-estima. Afinal a passagem do tempo acaba nos ensinando alguma coisa...

um forte abrao

Maurcio
10:48 am
Futebol: alegria e sofrimento
li o texto do cony sobre futebol (abaixo). interessante esse negocio de ser de esquerda e gostar de futebol no brasil. o patrus cristao mas a grande cisma que eu tenho com ele pelo futebol. eu gosto de futebol mas ele - ia dizer obcecado, mas o patrus nao merece essa palavra - apaixonado pelo jogo. APAIXONADO com maisculas. daqueles que lembra as escalacoes do galo e da selecao desde 58. ou desde antes, talvez.

e eu, que sou reconhecidamente alienado, nao entendo como ele e outras pessoas engajadas amam tanto um jogo que genialmente jogado pelos brasileiros mas que se desenvolveu intimamente relacionado ao centro escrotal e fecal da corrupcao brasileira, que sao os clubes de futebol.

nunca vi tanto corrupto, tanta carcaa podre por dentro quanto nos clubes. o cartola um criminoso. os passes dos jogadores sao heranca da escravidao. o futebol e a musica continuam sendo as unicas formas consistentes dos negros ascenderem socialmente no brasil. o futebol o bico que alivia a pressao das massas, engasgadas com tao poucos minimos salarios.

nao era verdade que o governo ditador liberava a catraca do maracana em dia de greve ou manifestacao?

entao, que diabos de contradicao essa? por que nao ouo ninguem - fora o pel - protestar (consistente e ativamente) contra o esquema de corrupcao que a fifa comanda?

o futebol, em muitas instancias, mais importante que o governo. tenho a impressao que os cadernos de esporte sao muito mais lidos que os de politica. entao por que continuar venerando tanto essa 'mulher', nitidamente gostosa, mas tao vagabunda? (desculpem-me, feministas; o futebol tambm tem isso, coisa de homem no brasil.)

enfim, estou mandando uma mensagem assim, de improviso, sem propsito de ofender ninguem. s quero entender um pouco, ouvir outras opinios de pessoas que tambm sao (menos ou mais) de esquerda (considero 'de esquerda' quem quer e sonha com um brasil melhor para todos os brasileiros) e que (mais ou menos que o patrus) gosta de futebol.

saudacoes.
10:46 am
Didi, por Carlos Heitor Cony
RIO DE JANEIRO - Que Pel, Garrincha, Jair da Rosa Pinto, Nilton Santos, Zico, Rivelino, Grson, Zizinho e Romrio me perdoem. Mas o maior jogador que vi jogar foi Waldir Pereira, o Didi, que conheci com a camisa tricolor do Madureira e, mais tarde, com a camisa tricolor do meu time, o Fluminense.

Vestiu outras camisas, inclusive aquela desbotada da antiga seleo nacional, quando foi bicampeo mundial. Em 1958, na Sucia, Pel foi o heri. Em 1962, no Chile, foi Garrincha. Mas nas duas ocasies, o maestro, o eixo sobre o qual o time girava, era Didi.

Nunca houve jogador elegante como ele. A imagem que Nelson Rodrigues criou definitiva: o prncipe de rancho, o prncipe etope que desfilava arrastando um manto de arminho e prpura.

Devo a Didi o meu afastamento da torcida em campo. Quando o Fluminense vendeu seu passe para o Botafogo, jurei nunca mais assistir a jogo do meu time. Com rarssimas excees, cumpri o juramento.

A histria oficial garante que ele inventou a folha-seca num jogo da seleo contra o Peru, em busca da classificao para a Copa do Mundo. No foi bem assim. Foi numa partida do Fluminense contra um time suo, cujo nome, traduzido, era "gafanhoto". A camisa dos caras era verde, da o nome.

Foi no Maracan, nas balizas que foram dedicadas a Ghiggia, quando deviam ser dedicadas a Didi. Ali ele marcara o primeiro gol no estdio, num amistoso Rio e So Paulo. Ali ele fizera a primeira folha-seca, o chute que fazia da bola uma pluma ao vento, tal como a mulher, segundo o Duque de Mntua no "Rigoletto": mudava de inflexo e de pensamento.

Entrevistei-o uma vez, em sua casa na Ilha do Governador. Ele no era elegante apenas em campo. Nunca entrevistei o Aleijadinho nem o Machado de Assis. Mas acho que j entrevistei um artista genial.

Por quem dobram os sinos de Hemingway? Agora sei: Dobram por Didi...
10:42 am
resposta ao Ricardo
poize, meu velho. entendo o que vc quer dizer com 'bruta afeio'. eu tbem sinto isso, afeicoes brutas ou brutais, que sao doces e amargas. por exemplo, com sao paulo. esse caso ainda pior porque para abandonar sao paulo, eu abri mao de coisas que me fazem muita falta e que nao encontro em nenhum outro lugar. posso achar coisas diferentes mas sao paulo tem uma caipirice (que s vezes brega, s vezes s luar e estrelas) misturada com cosmopolitanica (que tem seu lado xenoflico, idealizador do estrangeiro), misturada com a forma boa como o subdesenvolvimento faz as pessoas se aproximarem mais (ou darem-se tiros na cara), misturado com uma latinidade (que tbem tem seu cunho de 'latrinidade') em circulos, enroscado, emaranhado de dores cerveja e coisas inuteis, mas com lgrimas verdadeiramente vivas e riso tbem. rica, meu velho, noto aqui como o riso dos americanos quase dramtico, como se fosse nao uma funcao biologica mas uma obrigacao social, algo que se tem que fazer em determinadas horas, durante certos eventos sociais. a gargalhada nao sobrevive ao politicamente correto. por isso, o americano precisa do humor negro de gente como howard stern (assistiu 'private parts'? assista!) para rir. e aqui tbem se chora muito menos. isso duro, meu irmao... abracos saudosos
10:41 am
Mensagem do Ricardo
Sabe que, naquela poca, a Mariana (Princezinha, lembra?) j andava me paquerando e, como deu pr notar, atingiu os objetivos...

Larguei a Raquel para ficar com a Mari, mas, depois de um tempo, bateu um puta peso na conscincia por ter largado uma menina inteligente para ficar com uma gostosa...

Hoje eu acho que no foi bem por a... A Mari no era to burra e o problema da Raquel estava muito alm da simples falta de charme feminino... No sei se j entrei nos detalhes, mas ela est com uma filha (em produo 'independente') e planeja - acredite - ter outro beb em breve... Ela comentou que, assim que terminar a faculdade (ela largou vrias vezes o curso, aquelas coisas de gente perdida...), quer arrumar uma verso mais modesta de Luciano Zafir para incub-la de novo...

foda!

Mas, apesar disso tudo (e inexplicavelmente), tenho uma bruta afeio por ela... fico com d por v-la dando essas cabeadas, gostaria de ajudar em alguma coisa, mas no vou nem pensar em me meter nessa fria...

Depois dou mais detalhes... ela fez aniversrio esta semana e deu uma festa num lugar grotesco...

Abs,

Ricardo
10:40 am
Resposta a Carlos
carlito -

vou escrever em portugues. mais fcil e eu sei - vc me controu - que vc entende.

ainda corro a maratona de procurar um lugar para morar. se deus quiser, esta semana se resolve. mande 'vibras'! tenho algumas possibilidades e uma especialmente me agrada e que, por coinscidencia (ou nao) fica do lado do seu ex-apartamento. adoro a rea. o melhor de nova york nesse momento. nem lixo nem luxo. tenho a impressao l que tinha do bairro onde eu cresci em sao paulo. sao paulo, como vc sabe ou pode imaginar, uma cidade feia e suja. manhattan de terceiro mundo, com 20 milhes de pessoas divididos entre os que andam de nibus, os que andam em carro da polcia, e os que andam com carros importados. uma tragdia triste. mas dentro dessa cidade feia tem um bairro que sobrevive a toda brutalidade, que onde eu me criei. se chama vila madalena e apesar de existiram muitas vilas em sao paulo, esta a mais fiel ao nome. parece mesmo uma vila, com coloridos cotidianos, bares para tardes de sbado, livrarias; tenho mesmo a impressao que a vila madalena desafia a ciencia da meteorologia: enquanto chove no resto de sao paulo, o cu azul na vila. sempre azul na vila porque o azul est no coracao e nos olhos das pessoas. e sabes que: tenho essa impressao tbem em clinton hill-fort greene. tem gente de verdade, parece uma vila, com os cafes, as pessoas misturadas, as escolas, perto de tudo mas que 'stands out', pode ser uma ilha para atravessar os dias mais difceis. sei que vc me entende... te cuento que comecei um curso de arte com um artista brasilera buenissima. tres horas por sabado. me senti crianca de novo. e cercado de mulheres. nao bom? muito papel, cores, brinquedos em geral (folha de aluminio, madeira, isopor, lixo, etc.), sbado e mulheres divertidas. que sorte!... hoje domingo mas amanh feriado. acordei cedo (como sempre). duas amigas brasileiras vem visitar. ficam aqui uns dias. vamos sair e passear. matar saudades. ver nessa cidade louca os tantos festivais, exposicoes, pessoas, praas, campos, etc. vai ser bom... bueno, camarada. fico por aqui. escreva mais sobre todas as belezas da italia. fico com inveja mas tbem feliz por imaginar que existem essas coisas, veroes na italia, aulas de pintura, canais, parques, jardins. deve ser muito lindo mesmo. vc merece tudo. aproveite por todos ns. um abraxo.
10:36 am
Mensagem de Carlos
como estas amigo?

sabes que la semana pasada estaba escribiendote y se corto la conexion
estaba en un cyber cafe (el miercloes finalmente me instalan en casa el
telefono) y nunca mas se pudo usar ninguna maquina... jajajaj re raro pero
el cyber espacio es asi, no?

che como estas? el trabajo, la vida, etc? contame...

yo estoy bien la casa que encontramos es hermosa, jardin y verde, realmente
mejor de lo que me imaginaba... estoy llendo bastante a venecia, manana voy
todo el dia a una clase de historia del arte y dibujo y pinto casi todos los
dias... es muy raro este cambio ahora que ya esta todo mas estable es mas
raro x que hacia muchisimo que no trabajaba y me dedicaba solo a mi y a lo
que me gusta... es muy desafiante y me gusta!

para mi cumple estube en Verona que es hermosa y despues al lago Como que
es increible.
ayer estube en una fiesta muy buena te cuento que aca se lo pasa muy bien me
gusta la gente y ya entiendo todo el italiano, a mi me entienden x que
mezclo portugues italiano y argentino asi que les causa gracia y a mi me da
risa.

Estoy por empezar a partir del miercoles a trabajar para un estudio de aca,
les hare una ilustraciones y una senora quiere que le haga un retrato...
jejejje es todo tan raro para mi!
Ojala que podamos hacer algo juntos ya sabes que is me necesitas podes
contar conmigo.

Juliano disculpa que tarde tanto en contestar pero esto de los cyber cafes
no es para mi ya ves que siempre me pasa algo... es un incordio...
pero ya esta semana estare de nuevo alli me bajare plink y ya te avisare!!!!

x lo pronto pasalo bien y manda mis saludos a todos x ahi... se los extrana
gente tan calida y divertida... yo lo pase muy bien en Star.

Un gran abrazo!!!!!!!!!!!!!!!!!!!


Carlos
10:35 am
Resposta Andrea P.
andreasa - nao pelo ministro (era ministro? cartola? da fiesp? all the above?), mas pela asa de voar, para os seus voos altos e baixos (mergulhos s vezes), e por esses nossos amores dificeis... para os que querem virar hacker, o ricardo dominguez deixou o email dele (nao deixou?) no final da entrevista... quem sao essas pessoas que estao lendo? como chegaram os texto? me conta isso... me conta da vida tbem. que seja como um blue desencontrado, fantasia nossa, com trilha de cazuza e legiao para filme-clip de glauber nos anos 90. me conta. me narra, me explica, me chora baixinho de noite, ou no nibus das seis... eu quero ouvir a tua voz. me convence a acreditar nessa sua dor ingritvel e que nem o choro aplaca... eu espero. to esperando. com saudades. escreve. meus beijos, seu amigo. (velho)
10:35 am
Mensagem da Andrea P.
Querido JU!!

Saudades saudades saudades... vou ler as tantas coisas que voc faz e ficar feliz com sua presena virtual! vrias pessoas tem lido a sua entrevista com o cyberzapatista e querem virar hackers ... e agora? Quando voc vem dar um curso pra gente??!!!

Beijosssssssssssssssssssssssss
Wednesday, May 23rd, 2001
8:00 am
minha gente -

envio em anexo um novo ensaio. nele aparece com mais fora a minha tendncia de escrever sobre temas que no esto muito em voga e de opinar pretenciosamente e tambm com certa superficialidade sobre questes que no conheo profundamente.

decidi escrever sobre jesus cristo, a Igreja Catlica e as igrejas em geral. e reconheo que fui taxativo entre outras coisas em relao aos cristo atuantes, mas porque eles ou pelo menos uma parte deles tradicionalmente muito chata e muito burra e muito angustiada. tomado por este sentimento sinto que acabei deixando de falar do lado humanista do cristianismo e que tambm est ligado mesma instituio.

agora, ao escrever esta mensagem, me ocorreu que falei s sobre o lado ruim da igreja porque polarizando - de um lado o bom Cristo e de outro a Igreja m - ficou mais fcil realar virtudes interessantes do Cristo. alem disso, espero que vcs, se tiverem paciencia para ler at o final, perdoem sobretudo a minha presuno que vem de uma conhecida necessidade de me mostrar e me afirmar. ela aparece ingenuamente em todas as passagens em que eu digo como as coisas esto erradas e como EU faria para que tudo fosse melhor.

mas mesmo por esse defeito e muitos outros, convido vcs a perdoarem a minha imperfeita humanidade para talvez encontrarem alguma virtude no texto, que eu acho que ele tem. me digam vcs.

Abraos a todos, Juliano
8:00 am
A divina humanidade do Cristo

Para Patrus Ananias, que no perdeu o humor nem a doura.

Onde falo sobre o que sobra da histria do Cristo se tiramos os milagres sobrenaturais.

Outro dia eu participava de um bate-papo com uma celebridade na internet e me chamou a ateno a curiosidade de um dos fs que queria saber se o convidado "acreditava em Jesus Cristo".

Para ns, latino-americanos, essa pergunta quase que s tem uma resposta. sim. Um sim por um lado cada vez mais reticente e por outro, mais obcecado - depende de que lado da cruz voc esteja. Poucas pessoas - ainda assim meio culpadas - reconhecem publicamente que no crem no maior mrtir do Ocidente.

Afinal foi catolicismo, tanto ou mais que as armas, que conquistou a Amrica. Por isso somos o continente mais catlico do planeta. At quem no simpatiza com a Igreja e nunca foi obrigado a ir aos cultos, se sente pouco a vontade ao 'infringir' regras de tratamento como, por exemplo, no usar maisculas para escrever 'filho de deus'.

Eu no sei quanto a vocs, mas detalhes como esse agem no irracional e me incomodam. Eu tenho medo de estar cometendo um pecado e por via das dvidas acabo escrevendo 'como se deve'. Uma pessoa que se benze na frente de igrejas e cemitrios me faz pecador por tabela e mesmo que eu no me sinta assim 5 minutos depois, durante esses 5 minutos eu penso que mais fcil no ir para o inferno quando a sua famlia impe desde cedo o hbito de ir missa.

Mas no s a culpa que incomoda quando me perguntam se eu 'acredito no Cristo'. Tambm fico frustrado, constrangido por no ter oxignio para dizer mais sobre um tema que verdadeiramente incrvel. Eu sinto mal-estar s de ouvir a palavra 'Jesus' porque exceo de um curso na faculdade sobre a bblia, todas as vezes que o tema apareceu numa conversa, era para eu ouvir a mesma coisa: que sem eles, o pai-filho-espirito-santo, eu vou para o inferno.

Perto da minha casa, em cima da entrada do metr, tem um out-door com um padre - acho que numa pose disciplinadora, de braos cruzados - e um texto assim: "sofrendo por ter abortado, venha para a Igreja" ou alguma coisa ainda pior. Como se o aborto fosse fcil para a mulher, no fosse uma cirurgia e no fatalmente machucasse o instinto materno.

O ABC do cristianismo para os convertidos o mesmo; catlicos e protestantes concordam mais que discordam entre si e usam o mesmo 'livro didtico' para o culto. O cristo praticante de hoje me d em geral uma impresso ruim: de ser um tarado reprimido, ou de precisar da aceitao de um grupo, ou de depender de rdeas morais para conter as prprias obsesses, ou ainda de ser to desmotivado que quer garantir-se na prxima vida - porque essa no est valendo a pena.

Os que so cristos por imposio familiar, participam do culto formalmente e esto ali como em outras situaes pblicas: obedecem uma forma de conduta, um vocabulrio, uma dana para no chamar a ateno dos outros e poder ignorar secretamente o que acontece do lado de fora. e ainda tem um ltimo grupo, o nico que se sobressalta entre os canalhas, que a dos defensores de causas sociais que usam o poder simblico e a fora institucional da igreja para confrontar o estado e chegar ao indivduo - coisas que os militantes polticos tradicionais ou cientistas tm mais dificuldade de fazer.

***

Para responder se eu acredito no Cristo, eu preciso antes esclarecer quais so as duas outras solues lgicas para essa dvida escondidos no sentido bvio.

A primeira se refere historicidade do Cristo. No sem a mesma culpa descrita a cima eu questiono: ele como indivduo existiu, foi homem, esteve na terra, ou um mito composto pela imaginao de geraes? H quem duvide que Shakespeare, o maior dramaturgo da Inglaterra, era uma pessoa; existem estudiosos que afirmam que as peas atribudas a ele poderiam ter sido escritas por pessoas diferentes; e veja que Shakespeare nasceu mais de quinze sculos depois do filho de Jos e Maria. Outro exemplo para sustentar essa dvida , para citar um caso brasileiro, Zumbi dos Palmares, que teria morrido em combate mas que renasceu muitas vezes - era visto, inclusive - enquanto lenda para encarnar o desejo de liberdade do escravos negros.

Da mesma forma as histrias de pregadores messinicos que viveram pelo Oriente Prximo poderiam ter sido 'digeridas' pela papa cultural povo daquela poca - papa esta que misturava Oriente e Ocidente, Roma e Prsia, junto com frica e rabes - para sintetizar (ou sincretizar) esse personagem to contraditrio, que uma hora roda a baiana com os ambulantes na porta do templo, outra caminha sobre as guas e em outra ainda enfrenta o preconceito da multido para defender uma prostituta.

Outra possibilidade de resposta, a mais comum, que a questo se refira natureza divina do Cristo, que ele no apenas existiu como humano como era uma verso primitiva do Superman, com poderes ilimitados para fazer o bem e combater at a morte o arquinimigo de seu pai, o cruel Lcifer, anjo cado que traiu a confiana de deus ambicionando tomar o poder atravs de uma rebelio - rebelio esta no estranhamente comparada no curso do tempo a todas as revoltas contra o poder institudo e mais recentemente s que deram a luz aos estados comunistas contemporneos; lembram-se da histria de que comunistas comiam criancinhas?

Anedotas parte, os que acreditam nessa verso acreditam entre outras coisas que: 1) Maria concebeu e pariu seu filho sem perder a virgindade; 2) que o Cristo marcou um encontro no meio de um rio e chegou no local andando e sem se molhar; 3) que sem estar bbado ele atendeu a um pedido de sua me para transformar gua em vinho; 4) que ele para provar que era o profeta teria curado cegos, aleijados e ressuscitado um amigo; 5) que ele teria dado de comer a uma multido com s um pedao de po e outro de peixe.

As igrejas esto muito caducas para impr aos homens e mulheres do sculo 21, que aprendem fsica, qumica e histria na escola, a ver o mundo pelas mesmas lentes de gente de um mundo pr-cientfico, onde os pressupostos morais eram passados de gerao em gerao na forma de histrias fantsticas, de drages e elfos e sereias e tantos outros seres mitolgicos de corpo humano ou parcialmente humano e com poderes empresados do mundo natural como o fogo, o trovo, a chuva. E as igrejas, que se auto-conferiram o poder de decidir quem entrar no suposto paraso, usam esse poder para chantagear levando as pessoas a dizer que sim, que esses absurdos aconteceram como diz a bblia.

Eu fico indignado com o silncio coletivo que protege a bblica e ao mesmo tempo classifica de primitivos outros que usam o mito para interagir com o mundo. Ao mesmos eles no tm a viso racional para contradizer-se o que no nosso caso nos torna hipcritas no melhor dos casos.

Agora o momento de superar a hipocrisia.

***

Sobrou uma possibilidade de resposta pergunta sobre a crena no Cristo e que se refere no existncia dele ou natureza divina dele, mas mensagem e o exemplo creditados a ele e que sobrevivem momentos muito diferentes das civilizaes no Ocidente.

Essa alternativa me tranqiliza porque mostra que esse aspecto foi e continua sendo maior que s organizaes que tentam institucionaliz-los. So mensagens que resumem uma proposta de humanidade que no existia antes e que passa a diferencia o ser humano de depois. Apesar do meu conhecimento de histria Antiga ser limitado, eu tenho a impresso que at o Cristo tirar a vida era um ato sem importncia e amplamente aceito socialmente como hoje aceito caar borboletas.

A escravido no era questionada assim como no se questionava que um escravo, apesar de ter as mesmas caractersticas fsicas de um soldado ou de um sacerdote, ele vinha sem alma. essa conceito libertrio e humanista que passa a existir nas pessoas influenciadas pelo Cristo. At ento a liberdade dependia do estado que regulava o poder de cada casta. Depois, o indivduo pde ter conscincia de si para reconhecer que a liberdade a liberdade no um atributo da civilizao e portanto no pode ser regida pelo estado. o esprito que, quando tem conscincia de si, livre independentemente do corpo, que apenas um instrumento para chegar libertao. Torna esta proposta ainda mais revolucionria o fato de a sua realizao pressupor a a resistncia e a luta pacficas, sem violncia.

***

E o que foi que o Cristo disse e que sobreviveu na bblia catlica inclusive quando os catlicos inquisidores sangravam e matavam - muitas vezes queimando - pessoas no se aceitavam a estrutura de poder do Vaticano? O que estava escrito no livro importante do mundo ocidental quando os catlicos apoiaram o genocdio aos judeus pelo partido Nazista alemo na primeira metade do sculo? Que mensagem estava codificada de uma forma to bvia a ponto de sobreviver dentro de uma estrutura apodrecida como a do catolicismo mesmo sendo esta mensagem a perfeita condenao dos atos dessa instituio?

- Atire a primeira pedra quem nunca pecou...

Ele, por exemplo, teria desafiado uma multido usando o corpo dele para proteger uma puta qualquer que estava para ser apedrejada na rua. Se fosse o Superman era fcil porque o corpo de ao no sofre com pedras e o dele era de carne. E por ser filho do criador, ele podia ter usado um milagre fazendo chover pimenta malagueta apenas no rosto da turba arruaceira ou provocado um eclipse do sol e projetado numa tela esttica aquele filme em que a Sharon Stone cruza as pernas sem calcinha ou convocado as cobras do deserto a vomitar no cho azeite de oliva sob os ps dos malvados enquanto ele levava Maria Madalena para um lugar protegido. Misso cumprida!

Mas apesar de supostamente dispor dessas vantagens, ele usou a palavra - no a espada, no o fogo, no a plvora - para dar conscincia multido de que o pecado era o mesmo da prostituta e de todo mundo, de sermos de carne e imperfeitos, em aperfeioamento, e que perdoar ao outro - e no conden-lo - o que deixa que a gente tambm se perdoe e continue vivendo. Nesse sentido d para dizer que ele fez cegos enxergarem, enxergarem por dentro, como poderia dizer que ele fez os tristes darem risada, os retardados pensar, ou qualquer imagem que represente um ganho de conscincia.

- Amai ao outro como a si mesmo...

uma frase to simples que parece uma equao matemtica. Se o outro que no sou eu o meu inimigo ento a condio para eu sobreviver que este outro morra e o mesmo vale para ele. Se sempre que eu tiver o poder para submeter o outro minha vontade eu usar esse poder, a minha vida se resumir a mim e eu sozinho no existo porque no tenho nada para me espelhar. Amar ao outro como a si o princpio da no-violncia e que, ao contrrio do que parece, exige mais coragem do que o enfrentamento. Matar ao outro o mesmo que se matar; condenar ao outro se condenar; ignorar ser ignorado e se ignorar. incrvel que h dois mil anos essa frase existe e continua desafiando a compreenso do Ocidente to orgulhoso de seu cleaning e suas tecnologias.

So mensagens como essas que me convencem da divindade do Cristo, uma divindade fundamentada no amor; amor que a combinao do esprito divino com o instinto animal e que existe em criaturas mais desenvolvidas como chimpanzs e golfinhos mas que se manifesta com mais clareza nos seres humanos. Amar que ao mesmo tempo o sentimento mais essencial e mais sofisticado; que o comeo e o fim do movimento que cria a vida.

O 'feitio' do Cristo foi ter mostrado como compartilhar o po, dando o exemplo para a multido de seguidores abrir as suas bolsas e fazerem o mesmo, dando a impresso de que o po se multiplicava quando o que se multiplicava era a boa vontade. Isso o que em sentido figurado pode-se chamar de uma mudana da gua para o vinho.

Eu odeio a ladainha crist de que o Cristo morreu para (som de violino em funeral) perdoar os pecados dos homens. Essa forma de explicar a mensagem implica numa dvida que me escraviza igreja nasceu comigo e no pode ser paga de outra forma a no ser com a minha vida - e que sentido tem deixar de viver em agradecimento a quem morreu por mim?

Quanto a morrer pelos homens (e pelas mulheres tambm), o sensacional desse sacrifcio a demonstrao de coragem. Ele continuou a pregar apesar da perspectiva de ser preso e morto, dando um exemplo de resistncia pacfica opresso que no defendia uma igreja ou um estado, mas apenas o ser humano, independente da raa, do credo, da cor, da preferncia sexual, da religio, da nacionalidade, do conhecimento. O Cristo viveu como pobre, entre os pobres e morreu como pobre ao lado de ladres comuns. E para reforar o recado, ainda deu a outra face.



***

Esse legado, que vem sendo resgatado por lderes libertrios como Gandhi e Martin Luther King, apareceram para o Ocidente com o Cristo. Como as igrejas incorporaram essa mensagem bblia, o sentido da palavra 'cristo' e seus derivados se predeu a valores uniformizados, moralizados, que asfixiam a o contedo da mensagem.

Uma possvel soluo para o tema arrumar um sufixo mais moderninho para o radical "Cristo". E eu acho bacana, por exemplo, as palavras 'cristianismo' e 'cristianista', correspondendo quela proposta ou quelas pessoas que tem interesse nas idias do Cristo independente do misticismo capenga das igrejas - admito tambm gostar desses termos porque eles soam um pouco como 'marxismo' e 'marxista'.

Nessa perpectiva, rompa voc tambm com os preconceitos d uma chance a esse cara que nunca escreveu uma palavra e ainda assim, s com a palavra e a atitude, desafia a tecnologia do satlite e da internet.
Friday, May 18th, 2001
10:20 am
sensaao de loucuras. tentativa de sucumbir suavemente ao mistrio. nao ao acaso, nao s formas fceis de escapar atravs de pseudo-loucuras.
Friday, April 27th, 2001
10:00 am
tarde suburbana
Gritos de criancas brincando nas tardes de sabado.
Me sinto tao velho aos 30 anos
Nao faco serenatas
Mas s vezes canto pelas ruas
A primavera.
Sinto ainda flocos de luz no coracao,
nao tao intensos como os do cinema
mas verdadeiros.
Tem ngulos em que Nova York parece bombardeada
Ou abandonada numa esquina.
Pontes Caminhes concretos sinais de trnsito
So tristes porque so s (e se sabem)
Pontes Caminhes concretos sinais de trnsito
Mas eu nao sou indiferente.
9:48 am
sbado sem sol
garoa fina
vento frio
ceu cinza
nos sbados, morar perto dos amigos fundamental
9:44 am
sem titulo
Fazer cheiros com se fosse musica
musica como um poema
o poema como um teorema
o teorema como um casal dancando salsa...
Monday, April 16th, 2001
12:35 pm
Por uma criatividade politizada
SINOPSE: Onde eu tento redefinir o termo 'arte poltica' e defendo a necessidade do engajamento do obra de arte a seu contexto social. Ou sobre os 'podes' e os 'deves' do artista.

Arte poltica. Os artistas ficam de orelhas em p quando ouvem falar em politizao da arte. 'Arte politizada' significa mais diretamente 'arte engajada' o que quer dizer uma arte ancorada em um projeto, em uma ideologia. 'Arte engajada' lembra o que os artistas soviticos, chineses, cubanos faziam e que era na verdade uma forma sofisticada de propaganda do estado. E por conhecer a experincia traumatizante da convivncia entre artistas e estados autoritrios de esquerda - ditos socialistas - que eu entendo por que o artista hoje prefere a alienao ao engajamento.

Tudo que o artista no deve querer ser forado a defender aquilo que no acredita e - pior ainda - negar o que acredita. O artista precisa ter a liberdade de expressar com integridade aquilo que quer - e nesse sentido ser um dos principais termmetros da democracia. Quando o direito expresso artstica - qualquer que seja ela - estiver sendo questionada pelo estado, porque a essncia deste estado antidemocrtica, aristocrtica, elitista, e/ou segregacionista.

Contanto que a expresso artista seja no-violenta, a arte no apenas pode como deve ser polmica; e mais, a arte - no necessariamente mas bom que seja - pode ser tambm incmoda, porque o incmodo mais efetivo para provocar movimento. A arte e o artista devem ser livres e a sociedade deve sempre testar em si a condio de aceitar o diferente experimentando-se e descobrindo-se atravs da arte.

Eu quero, contudo, defender que nem toda a 'arte politizada' negativa. E no por ela ter sido uma vez domesticada pelo estado autoritrio - de esquerda e tambm de direita - que o artista tem que abster-se de viver integralmente seu compromisso com a sociedade.

Quando eu falo de juntar arte e poltica, isso no significa congelar a criatividade em um discurso moral unilateral; pelo contrrio, significa subverter o discurso moral atravs da criatividade artstica. A arte deve - considero que seja mais obrigao que dever - estar consciente de onde est a fronteira moral da sociedade que cega o cidado com direito cidadania o que permite a sustentao da opresso a outros seres humanos.

O que a sociedade precisa ver justamente aquilo que ela tenta esconder. obrigao do artista estar existencialmente onde haja gente com capacidade de viver plenamente a sua cidadania e que no faz isso por ter nascido pobre.

Para isso, o artista no precisa ser mrtir, exilar-se, tornar-se um monge ermito como o Zaratrusta; por outro lado, tambm no quer ter como modelo, como objeto de inspirao, a si mesmo e refletir seu mundo maravilhoso e complexo num exerccio de auto-contemplao narcisita - no que isso no possa ser belo mas que central o compromisso do ser humano ser humano com os outros seres humanos.

O artista no pode e no deve alienar sua expresso - uma expresso to fundamental porque no depende do filtro racional - das causas sociais. Quer dizer, a arte a ponte de contato mais sublime e direta da sociedade; ela que faz as classes, as culturas, as ideologias, as questes, as morais diferentes se encontrarem, se espelharem e dialogarem. atravs da arte que o humano consegue expandir a sua capacidade de interpretao, de comunicao, de tolerncia, de protesto; como ns, seres sonhantes, participamos ativamente da grande dana, da cerimnia - no a religiosa - arcaica e arquetpica que esto na raiz do humano.

Fazer arte mais que explicar o carnaval; mais que dissecar a dana entrar na dana e assumir a frente da folia e trocar todas as mscaras e virar anjo, cinderela, vagabundo, policial, prostituta, louco, gal de novela, favelado. E sobretudo, importante que o artista faa isso - e no o soldado - porque artisticamente possvel atingir este objetivo sem matar, sem violentar, sem alienar ou afastar o outro que diferente.

J dizia Bertold Brecht - um dos principais defensores da arte engajada, em uma de suas citaes mais repetidas - que somos todos polticos, mesmo quando achamos que no somos. Mas eu no concordo com ele. Ignorar a poltica pode ser uma forma de critic-la. s vezes o silncio pode ser mais efetivo que um golpe ou um grito. Mas para isso, o silncio precisa ser consciente, precisa responder a uma proposio da sociedade.

Quando ignorar a sociedade um ato de covardia, mais por medo de romper sua integridade interior que pelo de apanhar, a manifestao artstica perde a vitalidade. O artista nessas condies opta por cercar-se de outros artistas com as mesmas condies em guetos para poder existir em um mundo idealizado onde todos se vestem diferentes mas discutem os mesmos temas. A maioria dstes at tm honestidade intelectual mas no conseguem aceitar o compromisso de responsabilidade - no com o estado mas - com os outros seres humanos oprimidos pelo estado.

No se trata de ignorar o estado mas de fazer da arte a nova arma, de entregar-se ao que doloroso no mundo, ao que no se quer falar, ao bvio ululante; se trata de tirar a arte do museu, de tirar a arte da parede e lev-la para o espao pblico, de desenjaular a arte, de deixar que ela se alimente dos cadveres morais da sociedade e torne o dilogo social mais claro e efetivo. A arte poltizada deve forar-se para fora dos segundos cadernos e para dentro das capas de jornais.

A arte a que me refiro no precisa ser entretenimento para divertir como no precisa ter ideologia para questionar. O que ela precisa fazer tocar os outros, a maior quantidade possvel de outros, seja pelo riso ou pelo choro, sem afetamento e consciente de sua importncia - no digo histria e sim - para a sobrevivncia do ser humano em boas condies no nosso planeta azul.

Eu acredito que o artista ocupa a funo de revolucionrio dentro da sociedade; ele que planta explosivos nos cogulos morais que justificam a existncia de classes dominantes. ele que se submete, que d o exemplo arriscando-se, tocando o n, expondo-se como um filme virgem que se deixa impressionar pelo que existe de mais vital nas agrupaes humanas que a fora que brota de quem luta para sobreviver.

Para usar outra metfora, o artista deve deixar-se contaminar pela podrido social e na medida do possvel, agentar o processo infeccioso para desenvolver anticorpos naturais, nicos e originais para combater a doena. E finalmente, sem ser metafrico, considero que o artista deva ter curiosidade de conhecer o esgoto para onde vai a merda depois de dada a descarga.

essa a experincia que est acima do 'branco' criativo, do silncio do artista. A carne da sociedade to vibrante que no h regime criativo quando se est dentro dela; h temas para todos; quanto mais fundo o artista achar que pode ir, melhor para todos.

importante, no entanto, lembrar que o trabalho artstico no uma competio e que quem for mais longe no vai ganhar uma medalha. No se trata de ser melhor que os outros mas de ser o melhor de si, buscar mais radicalmente a si. Todo mundo tem limites que podem ser trabalhados conscientemente para expandir-se e alcanar novos limites. O mais importante manter a honestidade intelectual e a compaixo, uma para evitar que o artista v mais longe que pode ir e a outra para estimul-lo a continuar explorando as mil faces da vida.
12:33 pm
Resposta ao Ricardo
rica, vc fantstico! quero manter contato com vc sempre. morro de rir com as suas mensagens mas mais do que tudo, admiro muito a sua capacidade de chutar o balde - mesmo que vc tbem tenha que molhar os ps... sobre o mba, nao sei a diferenca entre mestrado lato e stricto. sorry, nao falo latim... ainda sobre mba - e respondendo sua provocacao dizendo que eu sou meio comunista - veja (no mba) como sofisticada e dinmica a estrutura de poder do capitalismo, principalmente do capitalismo mais recente que usa tecnologia e envolve milhares de esforos coordenados. por outro lado, acho que os americanos que inventaram isso e acreditam nisso fazem da prpria vida um objeto de consumo suprfluo. isso j nao legal. parafraseando o che - que deve se revirar no tmulo, todas as partes includas - hay que ser capitalista sin perder la ternura jamas... mais que ternura, eu diria a compaixo. o compadecimento uma forma quente de socialismo... sobre as mulheres, tambm estou no negativo. quando tiver algo (bom) para contar (vantagem), escrevo... te mando em anexo um texto recente. meio cabeao mas como eu nao tive que aguentar tanto o pessoal da UJC e convergencia quanto vc, ainda tenho pacincia... sobre o homem de mrmore, cabeao, sim. mas no estilo cidadao kane mais que no estilo godard. bem digervel... sobre a terapia, manda ver e faa valer o seus minutos. sinal de sade... um grande abrao do seu amigo, J
12:33 pm
Carta Ricardo
E a, J?

Eu j ouvi falar desse filme (o homem de mrmore)... legal mesmo? no muito cabeo? Eu sei que tem filmes cabees que so legais tambm, mas ando meio de saco cheio de reflexes tautolgicas, sei l o que h comigo...

O mestrado vai bem... na verdade, o que estou fazendo um curso de ps-graduao lato sensu chamado MBA, na rea de Comrcio Internacional l na Usp. So mais de 400 horas de aula, toda 6a e sbado, das 8h s 17h; bem pesado... Tenho a impresso de que, por a, MBA significa exatamente o que, aqui, ns chamamos de mestrado, strictu sensu... Estou enganado? Enfim, o curso timo... Tivemos aulas de economia e geoestratgia at agora e estou curtindo bastante. Teve uma aula, em especial, que eu acho que voc iria gostar. Foi com um tal de Gilberto Dupas, sobre globalizao e excluso social... Voc que ainda meio comunista iria gostar...

Outras novidades? Bem, mulheres andam em falta por estas plagas. Desde que me separei da ltima, a Fabiana (lembra?) acho que ela botou uma macumba em cima de mim; estou nessas pocas em que, quando o po cai da minha mo, cai com a manteiga sempre pr baixo... J, j melhora...

Conheci duas mulheres m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-a-s recentemente. Lindas, simpticas, inteligentes etc etc... Mas a, sabe como ... Concorridas, esnobes, aquela coisa toda. Para ajudar ainda mais, acho que estou perdendo o jeito com o sexo frgil. Tenho a impresso de que, de tanto tratar bem, acabo assustando, manja como ? Pois ...

Meu ingls vai indo. Aulas todos os domingos tarde ( mole?), treino quase todos os dias via Internet em chats em ingls. T certo que Shakespeare deve se remexer na tumba cada vez que vou escrever uma frase, mas acho que ele um dia ir me entender...

Bom, desculpe tanta demora em responder sua mensagem... At parece que no achei legal t-la recebido ou qualquer coisa assim, mas no verdade. Tenho estado de fato muito ocupado, chego em casa de saco cheio, os dias vo passando e sabe como ... Bem, ltima novidade: estou fazendo terapia! Coisa de bicha, t sabendo, mas eu estava precisando dar uma relaxada... Estava entre duas opes: ou eu fazia terapia (R$ 50,00 por hora) ou eu a em um puteiro (R$ 80,00). Como estou meio sem grana ultimamente...

V se no demora tanto quanto eu para mandar notcias, falou, meu chapa?

Abs,

Ricardo
Monday, April 9th, 2001
7:44 am
Arte na rua

So sinais
O silncio ensurdecedor
O silncio total para sufocar gritos
O silencio annimo, aptico de todo um planeta

Ouvi o silncio
De um planeta que mama entediado
nas vivas tetas aidticas do Novo Mundo
E gira epilptico numa trana de canais de TV.

Mas o homem maior que as civilizaes.
Ele transcende, salta para dentro do aparente abismo em si
Para aprender a dizer o indizvel e sonhar publicamente
Uma esperana contra os valores motorizados do pobre mundo.

hora da arte crescer dos segundos cadernos
Elevar a sensibilidade das rotinas domsticas e chegar aos funerais,
Para as manchetes, os esgotos cotidianos, as famlias e as escolas.

Artir
alm do adolescente narcisismo
dos zoolgicos de arte, dos supermercados de arte;
arte, seja
a minha moeda nica radiante companheira.

Artir
a conectar o esprito internet
Humana, misteriosa e transcendentalmente
Orgnica da vida.
Para enfrentar da brutalidade do poder institudo.

Artir,
Realizar o revolucionrio contnuo desentristezamento
desencinzentamento da vida
na raiz da vida.

Artir,
Deixar-se enovelar no vortex fractal da conscincia.
Para proteger a vital diversidade, descercar conscincias, desprivatizar almas,
Superar o cancro da guerra.
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